4 - O VAZIO PLENO
CLARK, Lígia, 1983


Arte, para mim, só é válida no sentido ético-religioso, ligado internamente à elaboração interior do artista no seu sentido mais profundo, que é o existencial. Toda a minha visão não é puramente ótica mas está visceralmente ligada à minha vivência do sentir, não somente no sentido imediato, mas, mais ainda, no sentido profundo que não se sabe onde está a sua origem. O que uma forma pode expressar só tem sentido, para mim, em relação estreita com o seu espaço interior, vazio-pleno da sua existência, assim como existe o nosso que vai se completando e tomando sentido à medida que a maturidade chega. Às vezes, penso que, antes de nascermos, somos como um punho fechado que abre o primeiro dedo quando nascemos e vai se abrindo interiormente como pétalas de uma flor, à medida que achamos o sentido da nossa existência, para num determinado momento termos consciência dessa plenitude de um vazio-pleno (tempo interior). Nesse instante atingimos uma concepção ético-religiosa que contraria toda a existência de um Deus fora da gente: ele está dentro de nós e é o que de melhor temos: a idéia de vida e morte nos abandona já não existem essas duas polaridades. O que conseguimos transmitir numa obra de arte não é mais do que um momento de estática dentro da dinâmica cosmológica de onde viemos e para onde iremos. É um flash deste infinito materializado no finito. Como se fosse uma parada no tempo. É um pedaço de eternidade. O homem busca o seu tempo interior e quando o encontra, ele já vivencia toda a sua origem. É nesse momento que ele ultrapassa a fronteira vida-morte. 



Obra "As meninas" do espanhol Velasquez


A angústia do tempo exterior (um dia depois do outro) que está relacionada com a mesma angústia existencial (o porquê das coisas em relação a ele) desaparece, pois ele começa ai a abstrair essa realidade exterior. Ela existe, porém ele não é mais invadido por ela no sentido prático-mecânico. Ele e ela passam a ser uma coisa só, no seu profundo sentido existencial. A realidade passa a ser um suporte de meditação ou um campo magnético onde ele, artista, se identifica com os tempos. Nesse momento, ele percorre toda a sua origem. Acabou o princípio vida e o fim morte. A obra de arte é a materialização desta fusão. É o que a faz eterna ou transcendente. Outros menos criativos sentirão, através da obra do artista, esse momento como resposta a uma pergunta de sentido universal. A vida só existe em relação às polaridades. Aí começa a relação entre vida e arte. Na arte, buscamos o vazio (de onde viemos) e quando o descobrimos valorizado é que descobrimos o nosso tempo interior. A aceitação da vida (dinâmica contraditória), o silêncio e a não-formulação passaram a ter significação como o cheio e a formulação. É o olhar para dentro de si. É a situação do homem no seu espaço - o começo da realização interior: maturidade. É o corte de situações antigas em que o indivíduo só existia em relação-função a elas. O homem não está só. Ele é a forma e o vazio. Vem do vazio para a forma (vida) e sai desta para o vazio-pleno que seria uma morte relativa. Para se atingir este estado de plenitude é preciso reviver todas as suas vivências anteriores, enfrentá-las - o que significa libertação. Aí ele atinge um estado de ética no mais alto sentido. Enquanto o vazio permanece desligado do outro lado (vida) é preciso debruçar-se sobre ele, como um abismo, e vivenciar nele o Nada, a Morte, falta de significado. Todo homem sente este estado interior. O artista através da obra de arte mostra a ele esta fatia da eternidade. É uma mensagem profundamente religiosa no mais alto sentido ético, valorizando este sentido do vazio não-significativo. As formas assim como todas as coisas exprimem mais do que sua simples presença física (medida e peso). É como se cada coisa irradiasse uma energia conjugada com a energia do espaço vivo e real. Quando se coloca um objeto num espaço grande demais em relação a ele, o espaço não deixa de ser vazio e morto, mas quando este objeto encontra o seu espaço, então o espaço que o rodeia é pleno. Se o objeto é colocado perto demais de outros objetos, eu sinto duas forças contraditórias se batendo uma contra a outra. 

Obra de Ticiano, um dos mestres da cor


O homem tem essa irradiação maior que, de qualquer objeto e maior que a dos outros animais. É como se, por ser um vertical, ele se apoiasse na terra menos que os outros animais. Então a procura da sua transcendência vem em contraposição a essa polaridade (terra-espaço) com a teimosia e a intensidade de um ser privilegiado, terrivelmente angustiado, sendo jogado sempre para cima, preso pelos pés pelo lado orgânico da sua origem animal. No momento em que arrebentando o retângulo invertendo virtualmente a superfície que, deixando de ser a espessura do espaço passa a ser o fio desse espaço, essa expressão já se dá dentro desse espaço real onde atuam todas as forças irradiadas, vivas e cosmológicas. A expressão é identificada imediatamente com essa irradiação orgânica-homem, dentro da mesma dinâmica real. Na Escultura houve muito antes esta necessidade, pois antes o problema era o volume. Depois ela foi se vazando e hoje é a complementação vazio-forma que a identifica como necessidade atual de expressão. Na Arquitetura a necessidade hoje é a mesma. Não existem coisas estáticas. Tudo é dinâmica. Mesmo um objeto aparentemente estático não está parado. Ele está apoiado sobre uma série de suportes que por sua vez estão sendo dinamicamente sugados pela força da gravidade. A minha pintura exprime, pois, uma nova realidade em que a obra de arte se expressa como um objeto vivo, como eu e você. No sentido de uma identificação com a realidade da nossa época: quando o homem vivia com mais espaço, ele podia se satisfazer, pois a natureza era um pouco o seu habitat, ele acordava quando a luz se abria sobre ele e dormia quando a noite se fechava. Havia bastante espaço e integração deste com a natureza. Na época atual, porém, ele se confina entre grandes edifícios esprimido nas suas próprias necessidades de irradiações, sem ter pois um espaço no sentido horizontal que seja um suporte para a sua espiritualidade. Então é coerente que ele procure conquistar o espaço tendo mais necessidade do que nunca de se realizar, não só conquistando o universo como também de dar vazão a essa expressão vertical de espiritualidade. Enquanto a ciência conquista um lado, é essencial que o indivíduo conquiste esse seu tempo interior tomando consciência desse sentido ético-religioso para que ele não se perca e não se destrua.


“O vazio-pleno”, Jornal do Brasil, 2 abril 1960,
Rio de Janeiro, Suplemento dominical, p. 5.

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